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Webinar sobre Lago Paranoá aprofundou debate com visões complementares

há 22 horas
4 min de leitura

Com avaliações e proposições alinhadas e complementares, o professor da UnB Oscar de Moraes Cordeiro e a antropóloga Jane Maria Vilas Boas realizaram um ótimo debate sobre as prioridades para preservar o Lago Paranoá.



Promovido pela ABES/DF e CBH Rio Paranaíba, o webinar se baseou nas 14 propostas encaminhadas por entidades ambientalistas aos candidatos ao Governo do DF para garantir a qualidade da água e da bacia do Lago símbolo de Brasília.

Oscar Cordeiro, especialista em engenharia de recursos hídricos e engenharia sanitária, com ênfase em planejamento integrado dos recursos hídricos, fez uma avaliação mais técnica, apontando que as mudanças climáticas, junto com problemas de drenagem urbana e de ocupação desordenada estão colocando o lago Paranoá em risco. Segundo ele, a piora da qualidade da água compromete toda a vocação e o esforço havido para tornar o lago um local de lazer e de referência.  Para ele, “é necessário haver vigilância para não se perder todo o investimento feito ao longo de quatro décadas para garantir a qualidade da água e toda a riqueza ecossistêmica existente no lago”.

Além da grande importância econômica, Oscar ressaltou o papel do lago para a sociedade do DF. “É obrigação nossa, um dever trabalhar pela conservação, preservação e melhoria do lago”, afirmou o professor, endossando as 14 proposições encaminhadas aos candidatos.

Ele destacou a necessidade de estabelecer metas para drenagem e para resíduos sólidos e a implantação de um programa de recuperação de áreas degradadas, “pois já existe enorme ocupação da bacia do lago e não faz sentido ser mais adensada”.

Ele também destacou a questão das orlas, defendendo a recuperação do que está degradado, além de atentar para a impermeabilização das bacias. Oscar também elogiou a proposta de criação de mecanismos de acompanhamento e controle social, porque “há descompasso entre o que representa o lago para a sociedade e o que pensam os governantes”. Ele citou a necessidade de maior transparência, criação de instâncias de tomada de decisão e restituição e canalização de recursos para melhorar o monitoramento da qualidade da água.

 

Licitação da Caesb

Sobre a licitação da Caesb para drenagem do braço Sul, no Riacho Fundo, ele considera que antes de pensar em intervenção estrutural é necessário conhecer melhor os sedimentos ali acumulados em função de toda a degradação que sofreu a bacia hidrográfica. “Não conhecemos o que há de sedimento, são anos e anos, inclusive com lançamento emergencial de esgoto com coagulante químico quando o braço do lago foi usado como extensão de tratamento do esgoto”, disse. Segundo Oscar, sem conhecer melhor o que temos de sedimento depositado “podemos acabar causando impactos maiores do que o assoreamento em si, porque foi criado todo um ecossistema naquele braço e qualquer intervenção física e estrutural de engenharia merece conhecimento maior”, explicou.

A antropóloga Jane Maria Vilas Bôas, especialista em gestão e políticas ambientais, que foi assessora da ex-ministra Marina Silva, também abordou a questão da licitação, lembrando que hoje deve ter muita vida na área assoreada, com todo tipo de microrganismos e pergunta: “o que vai dar se fuçarmos nisso?  E para onde levar essa montanha de coisas? “Para ela, “se não fizer com muito controle, é uma estupidez”.

 Ela afirmou que apenas fazer o desassoreamento é a dinâmica de enxugar gelo, pois tudo irá se repetir depois. “Não é eficiente, não é inteligente. E o momento é bastante inoportuno, não sabemos o que tem lá, é um complexo de coisas interagindo simultaneamente “.


Visão holística


Jane fez uma abordagem mais holística na avaliação do papel do lago para a população, lembrando que Brasília é a capital do país que possui mais biodiversidade no mundo: “temos a maior bacia hidrográfica, o rio mais extenso, aquíferos fantásticos, muita riqueza mineral, insolação e potencial de produção de energia eólica e de biomassa que outros países não têm. E Brasília é a capital desse colosso ambiental”, pontuou Jane.

Ela ressaltou que Brasília se deu ao luxo de se estabelecer de forma planejada, sofisticada, com inovação e esse deve ser o contexto para falar sobre o lago. “É um patrimônio ambiental, social, paisagístico, econômico e também deve ser visto como patrimônio cultural e de referência imagética, de construção do viver simbólico, uma paisagem que encanta e também cria identidade da escala bucólica do projeto de Brasília”.

Para Jane Vilas Boas, é possível resolver alguns nós de mobilidade que existem para ter transporte no lago, movido a eletricidade, energia solar, evitando a energia fóssil. Jane defendeu olhar a bacia sistemicamente do ponto de vista do território, pois “o lago não acaba em suas margens, ele é ponto de confluência de bacias e de seus usos”.

Ao defender a proposta de governança, Jane ressaltou que é fundamental ter pessoas dedicadas e remuneradas para cuidar do lago, que já foi objeto de grilagem em valores muito altos. “Ter funcionários dedicados, com capacidade de decisão é absolutamente importante”, frisou. Em termos de participação da sociedade civil, Jane defendeu a criação de um conselho com pelo menos seis segmentos: governo, parlamento, empresários, academia, ativistas e população, com participação igualitária. “A sociedade precisa entrar no Conselho com unhas e dentes, com sua percepção de preservação do meio ambiente”. Mas - lembrou, esses representantes precisam ser capacitados, ser amparados para fazer governança para garantir participação e qualidade. “Para ser verdadeira, a governança precisa ter investimento, sinceridade e todos os conselheiros atuando em condições de igualdade, para desenvolver uma consciência de território na população de Brasília”. Segundo ela, há uma questão antropológica que precisa ser enfrentada, que é “o apartheid econômico, social, urbanístico entre as populações que moram no Plano Piloto e aquelas das regiões administrativas mais afastadas”.  Jane defende estimular a população a pensar o lago por meio de campanhas, eventos, festivais, passeios para conhecer a bacia e até incluir o estudo do lago no currículo escolar. “A cidade toda precisa se sentir parte, ser acolhida, com identidade com o lago, sem ser hostilizada”, concluiu.

Depois de duas horas de debate, a webinar foi encerrada pelo moderador, Ernani de Miranda, presidente da ABES/DF: “fiquei muito impressionado com as duas abordagens se complementando. O debate e o enriquecimento das propostas ajudam no fortalecimento político do compromisso e do encampamento dessas propostas pelos candidatos”, concluiu, agradecendo a participação dos palestrantes e da plateia.

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