Pedro Duarte

É preciso investir na capacitação


O brasiliense Pedro Duarte é Engenheiro Ambiental e especialista em Tratamento e Disposição Final de Resíduos Sólidos e Líquidos. Trabalha na Confederação Nacional de Municípios e é conselheiro e coordenador da Câmara Temática de Resíduos Sólidos na atual diretoria da ABES. Nas horas vagas, é guitarrista.

  • Fale sobre sua atuação profissional

Atuo no setor de saneamento há quase quinze anos, sobretudo com gestão de resíduos sólidos. Analisei projetos de engenharia, elaborei planos de resíduos, trabalhei na indústria de geossintéticos e prestei consultorias para municípios e empresas.

Atualmente, sou analista em saneamento na Confederação Nacional de Municípios, entidade que congrega mais de 5.100 municípios, que tem uma atuação política e apartidária, sendo a maior entidade municipalista da América Latina.

Na CNM trabalhamos com defesa municipal, atuando junto ao legislativo e executivo federal, sobretudo. A entidade congrega todas as áreas da gestão municipal, extrapolando o saneamento. Promovemos atendimentos e orientações aos gestores municipais com base na legislação vigente e na política federal de saneamento, sempre enfatizando as boas práticas no saneamento urbano e rural.

Também produzimos muito conteúdo para os gestores municipais, como matérias e notícias, a live Bate Papo, seminários e notas técnicas. Atualmente estamos trabalhando na produção de duas cartilhas, uma sobre encerramento de lixão e aterro controlado e outra sobre novas tecnologias de tratamento de resíduos, com ênfase no chamado aproveitamento energético (Waste-to-Energy).


  • Qual sua relação com a ABES?


Fui da ABES no passado, saí e retornei no início de 2020 quando ingressei na Câmara Temática de Resíduos Sólidos (CTRS), mas ainda não estava na diretoria.

Embora tenha ficado muitos anos afastado, sempre vi a ABES como a principal referência do país no setor de saneamento, pelo seu real compromisso com a superação do déficit de serviços à população, tendo o diferencial de ser a única entidade descentralizada do setor, com várias seções estaduais, além da distrital.

Também tenho um carinho especial pela atuação da ABES no quesito capacitação, tendo contribuído na formação de milhares de profissionais, sendo que participo de cursos da ABES desde antes de concluir a graduação. Falando da ABES/DF, nos destacamos pela promoção do controle social, com representação e atuação em vários conselhos e fóruns de discussão sobre saneamento.

No meu retorno a ABES, em 2020, me envolvi em um trabalho do grupo Compromisso por Brasília, para acompanhar a prestação de serviços associados aos resíduos sólidos no DF após o fechamento do lixão da Estrutural. A ideia deste grupo é acompanhar os aspectos operacionais do aterro sanitário, a inclusão dos catadores na coleta seletiva e triagem de recicláveis e a remediação do lixão encerrado.

Em 2021, ingressei na diretoria como conselheiro consultivo e como coordenador adjunto da CTRS, onde o Sérgio Cotrim era o titular da Câmara. Recentemente invertemos, eu estou como titular e o Cotrim como adjunto.


  • Mesmo com tanto trabalho, o número de associados ainda é pequeno. Como atrair mais profissionais? O que podemos melhorar?

O caminho é renovar, atrair pessoas da academia, por meio do programa Jovens Profissionais do Saneamento (JPS). Penso que devemos focar nas pessoas entre 20 e 35 anos, que tem muita vontade de mudar a realidade brasileira, mas nem todos tem experiência. Essas pessoas querem adquirir knowhow e têm muita gente vivida na ABES, sendo essa troca de conhecimentos intergeracional fundamental para a longevidade da associação.

Temos que ter uma atuação direta nas instituições de ensino superior para mostrar o que é a ABES, nossos projetos, a estrutura, as câmaras temáticas que existem, as vantagens de se associar, as ações de capacitação etc. Também podemos desenvolver projetos em parceria com as universidades nos quatro componentes do saneamento.

Atualmente, redes sociais também são diferenciais e temos trabalhado neste sentido.


  • Qual a perspectiva que você vê para a universalização do saneamento?

O Brasil tem um enorme desafio que é a capacitação dos técnicos do setor, tema pouco debatido atualmente. Na minha opinião, não há uma estratégia nacional para avançarmos nesta questão, apesar de ações importantes de entidades, como o Uniabes.

Em que pese a discussão atual do saneamento ser liderada por profissionais dos ramos do direito e da economia, o que é importante, quem efetivamente fará projetos, obras e a operação dos sistemas de saneamento nos 5.568 Municípios brasileiros serão profissionais do sistema Confea/Crea, em especial engenheiros sanitaristas e ambientais junto com os engenheiros civis.

Entretanto, a maioria dos técnicos que dominam o tema estão concentrados nas capitais e regiões metropolitanas, e nosso maior desafio é interiorizar o conhecimento da gestão do saneamento, afinal universalizar o saneamento é ofertar serviços para toda a população de todos os municípios brasileiros. Portanto, a universalização não se dará apenas pela criação de normas, regulamentos e mecanismos de financiamento de investimentos, é preciso considerar quem efetivamente promoverá o saneamento na ponta.

Outra coisa é a participação do setor privado, o que já era possível na Lei 11.445/2007. A alteração do marco do saneamento prevê um rompimento brusco da estrutura atual de funcionamento do setor, sem uma transição gradativa, o que é preocupante e gera mais insegurança do que certeza. Honestamente, não creio no cumprimento da meta de universalização até 2033, infelizmente.

Para os resíduos sólidos, o gargalo da capacitação também existe, sobretudo para estruturar as entidades de regulação infranacionais e reforçar o quadro técnico dos municípios. Vejo com bons olhos o incentivo à regionalização por consórcios intermunicipais e à regulação do setor de resíduos sólidos. Também defendo a cobrança de taxas ou tarifas dos munícipes, mas preocupa a falta de investimentos por recursos federais.

Acho que o marco do saneamento foi mais positivo para o setor de resíduos que para os demais componentes do saneamento. Drenagem e manejo adequado de águas pluviais infelizmente são sonhos, apesar das consequências desastrosas das mudanças climáticas que vivenciamos.


  • A foto de seu WhatsApp mostra que você é guitarrista…


Sim, durante muito tempo conciliei as duas profissões, engenharia de dia, na modalidade home office com direito a muitas viagens, e música de noite. Foi um período muito rico, mas bem desgastante, porque tem o lado de se preparar, ensaiar, estudar guitarra, montar palco, fazer o show, desmontar a tralha e voltar de madrugada para acordar cedo e vestir o uniforme de engenheiro. Obvio que também tem o lado prazeroso: nada como estar com amigos fazendo algo que alimenta a alma!

Fui ligado à banda Arcablues e ao Projeto Clássicos do Rock-Acústico, gravei músicas autorais, toquei em festivais, em residências, pousadas, festas particulares, bares e restaurantes, muita coisa boa. E também entrei em muita roubada. Também toquei muito cover de artistas famosos. Além de Blues, toquei Rock, Pop, MPB, Reggae e outros estilos acompanhando bandas e vocalistas. Foram quase dez anos vivendo de música em Brasília. Então, há uns quatro anos optei por ficar só na engenharia e transformar a música em hobby.

Pedro Duarte