Mauricio Luduvice

Saneamento precisa ser feito com engenharia, capacidade técnica e bom senso

 

O ex-presidente da Caesb, Maurício Luduvice, deixou em 2019 a empresa depois de 35 anos de trabalho e abriu uma consultoria em saneamento, com três sócios, também egressos da Caesb.  Ele diz que o mercado está aquecido pelo novo marco legal e que há espaço para empresas públicas e privadas que demonstrem eficiência, capacidade técnica e gestão financeira. 

 

  • Conte um pouco de sua trajetória profissional


Eu vim para Brasília com meus pais, com cinco anos de idade, mas fui criado aqui e em Sergipe. Me formei em engenharia química na Universidade Federal de Sergipe. Passei um tempo lá, depois vim para Brasília direto para a Caesb, no final de 1982. Esse não era meu objetivo principal, mas fiquei 35 anos na empresa.


Passei uma temporada fora, na Inglaterra, de 1988 a 1993, fazendo mestrado e doutorado na área de engenharia de meio ambiente, no Departamento de Engenharia Civil da Universidade de New Castle.


A Caesb foi uma grande escola, que oferece oportunidades para quem quer trabalhar e desenvolver. Fui presidente no período de 2015 a 2018 e saí em janeiro 2019, no PDV, mas já tinha tempo para aposentar. Tenho hoje um escritório de consultoria de projetos no setor de saneamento em geral, água e esgoto. Somos três sócios, também originários da Caesb.

 

  • E como está o mercado?


O mercado não é simples, mas nos últimos anos deu uma nova aquecida. Diria que o novo marco do saneamento agitou o mercado. A demanda sempre existiu, mas nos últimos anos, com a necessidade de cumprir prazos, os investimentos aumentaram bastante, até porque a situação no país estava muito crítica. Mas o volume de investimentos necessários para atingir a meta é muito grande.

 

  • Quais são os desafios do novo marco legal?


É dever do Estado encarar a situação do saneamento e é uma oportunidade de negócios. Os investimentos públicos e privados aumentaram muito, saímos da estagnação que antes existia. A natureza do prestador de serviço não é a situação mais importante, importante é ter regulação eficiente e o prestador ter capacidade técnica, competência para executar e operar o sistema, ter investimentos. O prestador de serviço tem que ser eficiente, seja público ou privado. Temos exemplos bons e ruins dos dois lados. O saneamento precisa ser feito com engenharia, capacidade técnica e bom senso. Aliás, engenharia é bom senso acima de tudo.

 

  • O país terá capacidade de fazer todos os investimentos necessários?


A fonte principal de recursos são os órgãos de financiamento e o setor privado tem acesso a esses recursos, da mesma forma que as empresas públicas com capacidade de endividamento podem ter acesso a eles. O acesso ao recurso não deve ser selecionado pela natureza do prestador, público ou privado, mas pela capacidade técnica e de endividamento e a capacidade de execução. O que interessa é atender bem ao cliente, porque a dona Maria quer acesso ao serviço e saber se a água está chegando 24 horas por dia e sete dias por semana e se o esgoto está sendo tratado.

 

  • A meta de universalização até 2033 é factível?


Acho difícil cumprir a meta, não é simples de atingir, tem muito chão, mas a gente não pode se abater, o esforço tem que ser concentrado para atingirmos a meta que é, acima de tudo, necessária. Acho que o novo marco do saneamento está balizando e espero que aconteça, o prazo já foi adiado uma vez, espero que não seja novamente. Precisamos ver o saneamento como vetor de saúde e de geração de emprego e renda. E investimentos precisam acontecer também na repotencialização dos sistemas de água e esgoto, alguns estão bem antigos. As oportunidades de crescimento e de melhoria são muito grandes.

 

  • O que você gosta de fazer quando não está trabalhando?


Gosto de trabalhar muito, me distrai. Tenho 64 anos e não quero frear o ritmo, enquanto puder tenho disponibilidade e força de vontade para trabalhar em tempo integral. Mas, acima de tudo, temos que preservar a família, ter contato com filhos, netos. Tenho dois filhos casados, um neto e a filha está grávida, uma netinha está chegando. A filha é engenheira civil e o filho economista. Fora isso, gosto de jogar peteca e de praticar atividades físicas.

 

  • Como você avalia o papel da Abes?


Sou associado há muitos anos, desde quando a Caesb entrou, quando fundou a seção de Brasília. A Abes tem um papel fundamental na divulgação e fortalecimento do setor. Os cursos, o congresso que a Abes promove, os livros que ela edita e ajuda a divulgar são essenciais. A Abes é uma fonte de conhecimento, de oportunidades de treinamento, tem um papel muito grande, ela sempre lutou por melhor eficiência do setor, que precisa ser mais competitivo e eficiente. A Abes é uma grande protagonista.


Estamos precisando aumentar seu papel e sua participação, buscar mais associados, fazer mais divulgação. Claro que com a pandemia ficou mais difícil, mas espero que volte a participação que existia.

 

  • Qual sua expectativa em relação ao Congresso da Abes?


A importância do congresso é, lógico, muito grande, seja pelo networking, seja pela tomada de posição sobre a política nacional de saneamento, pois a Abes é um ator muito importante. O congresso dá oportunidade de acesso a conhecimentos técnicos, são muitas palestras, temas institucionais, muitos trabalhos técnicos para jovens profissionais. Eu até hoje ainda uso muitos trabalhos divulgados pela Abes, de algum colega que colocou algo importante no sentido técnico. Participar do congresso é também uma oportunidade para se conhecer novos equipamentos, eu recomendo a todo jovem profissional que está interessado em atuar nesse setor que frequente, que procure visitar as feiras nos congressos da Abes, conversar com fornecedores, conhecer novos equipamentos, as tendências.

Mauricio Luduvice