Andrea Portugal

“ABES tem altíssimo nível técnico”

A arquiteta eMestre em Gestão Econômica do Meio Ambiente Andrea Portugal Fellows Dourado trabalha intensamente na Recicleiros, viajando constantemente, o que nos obrigou a marcar e desmarcar a entrevista algumas vezes, que acabou acontecendo, por telefone, de Cajazeiras, na Paraíba. Andrea é diretora da ABES/DF, entidade que reúne, segundo ela, um conjunto de pessoas de altíssimo nível técnico, que contribuem para fazer avançar a luta pelo saneamento. Conheça um pouco mais dessa carioca apaixonada pelo trabalho e pelos filhos e netos.


  • Fale um pouco de sua trajetória profissional


Minha formação é em arquitetura urbanismo, me formei na Santa Úrsula, no Rio de Janeiro. Fiz mestrado em Gestão Econômica do Meio Ambiente na Faculdade de Economia da UNB. Comecei a trabalhar no projeto Favela Bairro, no Rio, na década 80. Depois, entre outras coisas, menciono o trabalho no Pró Catador e na assessoria da Associação Nacional dos Catadores (Ancat). Depois entrei para o SLU, na gestão da Kátia Campos, e agora estou na Recicleiros, onde o trabalho é muito ativo. Fazemos a integração entre empresas que têm obrigação de fazer a logística reversa de embalagens com as prefeituras e as cooperativas.

A Recicleiros assina um termo com os municípios interessados, que se comprometem a fazer a coleta seletiva e encaminhar o material para a cooperativa local participante. Se não existir cooperativa, ajudamos na formação. Iniciamos então a operação, que significa instalar a cooperativa em galpão de triagem equipado, que funciona com processos definidos e montamos uma equipe em cada município. Meu trabalho é acompanhar todas as cidades que estão em operação com a Recicleiros. Atualmente, estamos em funcionamento em dez municípios e mais dois começarão em outubro, Serra Talhada (PE) e Caldas Novas (GO), cidades que visitarei na sequência.


  • Qual solução para aumentar a reciclagem?


A gente já tem legislação muito forte e coerente, mas não há entendimento claro por parte dos municípios de que fazer a legislação entrar em vigor reduz os custos. Por isso, fazem a coleta de qualquer maneira, não conseguem engajar a população, não cobram dos grandes geradores e acabam pagando com recurso publico o que é privado. Tem muitos municípios fazendo a coleta de grandes geradores e aterrando ou, pior ainda, colocando em lixão um material que poderia voltar para o ciclo produtivo. E isso gera despesa, não só de aterramento e recuperação de áreas degradadas, mas também tem o prejuízo causado pela não geração de postos de trabalho, pela não utilização do material que pode ser reciclado, pela não redução do uso de água e energia. São várias coisas juntas nesse processo e que normalmente não são computadas porque falta conhecimento para os municípios se engajarem.

Outra questão é a cobrança frouxa em cima das empresas grandes geradoras, praticamente não tem cobrança. Alguns estados estão fazendo legislação mais específica para ter cobrança mais efetiva. Se a empresa teve recursos para se instalar naquele território, tem que comprovar que tem condição de reciclar os resíduos que gera. Já a população, ela se engaja, basta ter o caminho certo e ser cobrada para fazer isso.


  • Como você vislumbra a questão dos resíduos no Brasil daqui a dez anos?


Sempre temos que ter uma visão otimista para chegar aonde queremos. Eu vislumbro a redução desse crime ambiental absurdo que são os lixões, a destinação adequada do material e mais comprometimento de todos os envolvidos. Hoje temos a parceria do Ministério Público, que é bem engajado, mas para chegarmos aonde queremos depende de tanta coisa, não é?


  • O que você acha do trabalho da ABES?


Quando entrei, em 2013 ou 14, fiquei espantada com a quantidade de pessoas super capacitadas atuando, trazendo para discussão aquilo que em geral muitos querem botar debaixo tapete. Quando vi isso, decidi que queria fazer parte, não tem como ficar de fora. Quando você é empresa, você luta pela empresa, quando é governo, tem a questão política, mas na ABES a discussão é proposta por pessoas que não precisam se amarrar a nenhum lado e que vão à luta, questionam, propõem. São pessoas de altíssimo nível técnico questionando, fazendo proposições de políticas públicas para que a coisa ande.


  • E por que o número de associados ainda é pequeno?


Acho que as pessoas ainda não entenderam o potencial de fazer parte da ABES. Existe uma troca de informação altíssima, as pessoas se formam entre si, cada reunião é como se fosse um grande aulão sobre saneamento. O trabalho da ABES precisa ser fortalecido com a entrada de novas pessoas, para que aproveitem esse conhecimento e surjam outras ideias, outras propostas, novas fronteiras. As pessoas perdem uma grande oportunidade de aprofundamento em saneamento e na luta para a melhoria de vida de todos.


  • Fale um pouco sobre seu lado pessoal


A melhor coisa que tem para fazer quando não estou trabalhando é ficar com minha família. Meus quatro filhos estão morando em Brasília, então fica mais fácil reunir, para curtir os três netinhos. Tenho irmãos e meus pais moram no Rio, para onde viajo pelo menos de dois em dois meses.

É bom demais aproveitar os netos, ter contato com a natureza, fazer trilha, ir pra praia, viajar. Mas também participo de outros movimentos, apoio como voluntária uma creche na Estrutural, para filhos de catadores. E participo da Associação Brasileira de Combate ao Lixo no Mar. Acho que devemos fazer sempre um pouco mais, não podemos ficar parados só falando que as coisas têm que melhorar e não agir.

Fora isso, adoro em Brasília a quantidade de exposições e shows gratuitos que acontecem, acho fantástico. O CCBB é minha primeira opção de programa.

Andrea Portugal